ColaborAmerica 2017: um festival de muitos sonhos e algumas verdades inconvenientes.

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Participar do ColaborAmerica reforçou ainda mais em mim a crença de que um outro mundo é sim possível, que cada vez mais gente sonha com isso mas que não vai ser nada fácil construir a tal da “nova economia”. Ao comparar o festival desse ano com a edição de 2016 senti como se o ColaborAmerica quisesse nos dizer: sim, um mundo mais justo, baseado na cooperação e solidariedade é possível, mas para construí-lo vamos precisar encarar e enfrentar muitas verdades inconvenientes.

Talvez a principal dessas verdades tenha sido dita já em 2016, na primeira edição do festival, pelo fundador do Observatório de Favelas, Jailson Silva: o ColaborAmerica é um evento lindo, cheio de inspiração e de gente realmente comprometida com a mudança, mas “só tem branco aqui, tá faltando diversidade”.

E realmente estava. Mas, se para inovar e regenerar é preciso aprender, o ColaborAmerica mostrou que soube muito bem como fazer isso. Esse ano o festival abraçou a diversidade e nos mostrou que a sabedoria que mais precisamos está nos projetos, empresas e coletivos ligados às periferias, ao empreendedorismo negro e aos conhecimentos tradicionais de nossos povos ancestrais.

A crise que vivemos em larga escala não é nenhuma novidade para a população negra e indígena no Brasil. Então, se agora precisamos encontrar alternativas sociais e econômicas, é com quem sempre viveu num estado de emergência que devemos aprender. Se um dos pilares da nova economia é a valorização das comunidades é para as favelas, quilombos e aldeias que precisamos olhar e não para o Vale do Silício.

É nas favelas que encontramos, por exemplo, muitas das práticas que agora representam o power to the crowd, estampado em muitas camisetas no festival. É nas redes de solidariedade e proteção comunitárias que podemos encontrar práticas de colaboração muito mais antigas que crowdfunding ou os bancos de tempo; se buscamos sustentabilidade é nos saberes ligados à construção originários de comunidades indígenas e quilombolas que encontramos o que agora chamamos de bio-construção.

O que é inovar?

 

Em uma sessão promovida pelo Pretalab sobre a atuação de mulheres negras no mundo da tecnologia e da inovação, ouvi uma das palestrantes dizer que, para quem é negro no Brasil, inovar é estar vivo.

O que mais se pode discutir ao ouvir algo assim? Como falar sobre desapego em relação a objetos e consumo consciente? Como falar em “paradigma da abundância”, redes, blockchain, sustentabilidade quando a inovação que milhões de pessoas mais precisam é, “apenas”, permanecerem vivas?

Talvez conhecer o trabalho do Olabi, do PretaLab, da Afrotrampos, da Baobá-Brasil , do Desabafo Social e do Observatório de Favelas nos ajude a entender como é possível criar tecnologia, inovar e promover o empreendedorismo em um cenário tão adverso.

Podemos também aprender com José Pacheco e recuperar nossa capacidade de imaginar um novo mundo. Abrir mão dessa capacidade de sonhar e de criar utopias é matar a criança que existe em cada um de nós e isso Wellington Nogueira demonstrou ser uma “bobice” de uma era industrial que está se desmanchando.

Devemos ouvir atentamente os alertas e o chamado à união de Alessandra Orofino, mesmo que às vezes seja duro assimilar os “socos no estômago” que ela nos deu em sua palestra.

Co-labor-ação

 

O chamado para criar um novo mundo esteve presente em quase todos os momentos do festival. Já no primeiro dia Dominic Barter lembrou que labor, na língua inglesa, é uma palavra que pode significar ao mesmo tempo “trabalho” e também “trabalho de parto”. Perceber que co-laborar pode significar “trabalhar junto para que algo nasça”, me fez lembrar das palavras de Eduardo Galeano…

“Há outro mundo na barriga deste, esperando. Que é um mundo diferente. Diferente e de parto difícil. Não nasce facilmente. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos.” (Eduardo Galeano)

Pois então que o ColaborAmerica seja sempre essa convocação à construção coletiva de um mundo novo. Um mundo de “parto difícil”, que só poderá nascer através da colaboração e pelas mãos da diversidade.