O crescimento dos coworkings e a busca por conexão.

Em julho foi divulgado o Censo Coworking Brasil 2017. Os resultados mostram um amadurecimento do setor, com um grande crescimento do número de espaços de coworking existentes no país.

Existem atualmente 810 espaços no Brasil, o que representa um aumento de 114% em relação a 2016. Ainda de acordo com o Censo, aproximadamente 210 mil pessoas circulam mensalmente pelos espaços de coworking, seja para trabalhar, participar de eventos ou fazer reuniões.

O Fernando Aguirre, da Coworking Brasil, fez uma ótima análise sobre o resultados do Censo (você pode ler aqui). E um dos pontos que mais chamou minha atenção ao ler esse artigo e ver os números da pesquisa foi a consolidação dos coworkings como pontos de conexão.

Cada vez mais esses espaços se tornam locais de encontro de pessoas que buscam colaborar e compartilhar. Isso contribui para reforçar a percepção de que espaços compartilhados, como os coworkings, geram uma interação que é extremante positiva.

Gerar conexões e estimular a interação são dois objetivos que estão presentes desde o nascimento dos primeiros coworkings . O surgimento desse tipo de espaço de trabalho está diretamente ligado à expansão da chamada economia digital e da sociedade do conhecimento. Pode-se dizer que os coworkings são fruto da transição de uma economia industrial, em que o trabalho acontecia nas fábricas e escritórios, para a economia pós-industrial e digital, em que o trabalho pode acontecer em qualquer lugar, desde que você esteja conectado

1960.jpg

É um fenômeno semelhante à transição que ocorreu durante a Revolução Industrial: a passagem de uma economia baseada na agricultura para um novo modelo centrado na indústria fez com que as pessoas deixassem o campo em direção às cidades, pois lá estavam as fábricas.

Não por acaso o primeiro espaço a ser classificado oficialmente como coworking foi aberto em 2005, em San Francisco (EUA), região símbolo da economia pós-industrial e de novos modelos de trabalho.

Estão criando um novo ambiente social e econômico onde trabalhadores estão […] libertando-se do problema do isolamento ao trabalhar entre diferentes tipos de pessoas […], socializando e compartilhando suas experiências com diferentes pessoas de vários campos profissionais, construindo novas e importantes conexões bem como oportunidades para seus negócios.”
Carlotta Bizarri. The Emerging Phenomenon of Coworking.

Mais que um espaço físico os coworkings representam uma nova “atmosfera”. São espaços sociais antes de serem espaços de trabalho. Refletem a percepção, cada vez mais generalizada, de que a interação não é apenas possível, ela é necessária. Aquela imagem de funcionários trancados numa sala, guardando segredos está cada vez mais restrita a áreas muito específicas. De um modo geral, o que se busca hoje são ferramentas e práticas que tornem o conhecimento mais acessível dentro e fora das organizações.

O desejo de ser parte de um grupo que compartilha, coopera ou atua de comum acordo é um instinto humano básico que sempre foi limitado por custos transacionais.”
Clay Shirky. Lá vem todo mundo: o poder de organizar sem organizações.

COMO CRIAR UM ESPAÇO PARA CONEXÕES?

Uma boa referência sobre esse assunto é o trabalho do pesquisador Steven Johnson, que passou anos estudando quais espaços são mais férteis para a criatividade e para a inovação.

No TED sobre o livro “De onde vêm as boas ideias” , Steven Johnson desfaz o mito do gênio solitário, imerso em suas pesquisas e à espera de um insight genial. Segundo ele uma ideia já nasce como rede, ela é uma nova teia de neurônios estabelecendo sincronias uns com os outros. Então, se queremos ser inovadores e criativos devemos buscar espaços nos quais possamosconstantemente criar novas conexões e compartilhar nossos conhecimentos com pessoas de áreas diferentes.

Colaboração e compartilhamento, apesar de serem dois valores centrais para os coworkings, nem sempre acontecem na prática. Criar e manter interação entre as pessoas talvez seja o ponto mais sensível e difícil de se alcançar nesses espaços. Confiança e senso de comunidade não se alcançam de uma hora pra outra. Se o objetivo for realmente estimular a conexão entre pessoas e ideias, possuir uma ótima estrutura física provavelmente não será suficiente.

Essa é uma questão que até o badalado Google Campus enfrenta. Num ótimo artigo sobre a experiência de frequentar o Google Campus, em São Paulo, a Ana Haddad conta que, apesar de ter uma estrutura que impressiona não há tanta interação assim entre os frequentadores.

coworking_em_sao_paulo-ta_por_onde-14.png

Entre os motivos que contribuem para isso estão o excesso de regras, a gestão centralizada e pouca liberdade para criar seu próprio jeito de interagir com o espaço. Coisas, por exemplo, como uma placa na área de balanços que diz “evite balançar”.

A interação real acontece, ironicamente, nos bares e estabelecimentos ao redor do Campus, como a padaria e restaurante Porto Caires, na esquina da Rua Oscar Porto com a Rua Manoel da Nóbrega, onde grande parte dos frequentadores do Campus vai almoçar, lanchar e fazer um happy hour. (Ana Haddad)

Talvez isso possa acontecer de forma mais natural nas chamadas Casas Colaborativas, pois nesse tipo de espaço geralmente há a necessidade de colaborar com a manutenção da casa, participar da governança e da geração de receitas. Segundo o Censo 2017 elas ainda representam apenas 6% do total de coworkings no Brasil.

nossacasapost.jpeg

Já pude frequentar diferentes tipos de coworking. Espaços de ponta, como o Google Campus; um espaço que une coworking e coliving, o Surf Office e também faço parte de uma casa colaborativa em Salvador, a Nossa. O que posso dizer a partir dessas experiências é que poltronas coloridas e arquitetura descolada são coisas bem legais sim, mas um lugar é feito de gente. Se o que se busca realmente é colaboração a potência do wi-fi não vai importar tanto assim. Uma boa estrutura ajuda muito, claro, mas eu troco facilmente um crachá magnético por um abraço e conexões verdadeiras.