Feira livre: buscando alternativas à indústria da comida.

Na semana passada a Câmara dos Deputados deu um passo importante no sentido de aprovar o Projeto de Lei 6.299/2002, o PL do Veneno. O Brasil, que já é um dos líderes no uso de agrotóxicos, caminha para ter uma legislação ainda mais flexível nessa área. A pesquisa Segura este abacaxi! – os agrotóxicos que vão parar na sua mesa, realizada pelo Greenpeace expõe muito bem a dimensão desse problema mas ao que parece essa não é uma disputa em que argumentos científicos tenham muito peso.

Para completar o pacote de retrocessos a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural aprovou também o Projeto de Lei 4576/16, que cria regras mais rígidas para a comercialização de produtos orgânicos. Em resumo, flexibilização para os agrotóxicos e rigidez para os alimentos orgânicos.

A alimentação se tornou uma indústria dominada por megacorporações, que controlam a cadeia de fornecimento alimentar por inteiro, da semente utilizada nas plantações ao produto que chega às prateleiras dos supermercados.

Prateleiras que são, inclusive, parte do problema. O relatório Hora de Mudar: desigualdade e sofrimento humano nas cadeias de fornecimento dos supermercados, produzido pela Oxfam, demonstra como a cadeia de fornecimento alimentar  é extremamente concentradora e, frequentemente, explora economicamente pequenos agricultores e trabalhadores.

 

Créditos: Oxfam Brasil.

Além de estar nas mãos de um pequeno grupo de empresas esse sistema é também bastante injusto com os produtores de alimentos. De acordo com a Oxfam, "1 em cada 4 copos de suco de laranja consumidos no mundo vem do Brasil. O preço do produto brasileiro aumentou mais de 50% nos supermercados americanos e europeus desde a década de 1990. No entanto, o valor pago a pequenos produtores e trabalhadores rurais no Brasil chega a apenas 4% do valor de venda final."

Outro dado que impressiona é que "a porcentagem do preço final nas mãos dos supermercados (considerando uma média de uma cesta de produtos em diferentes países) passou de 43,5% em 1996 para 48,3% em 2015, enquanto a porcentagem que recebem as pessoas dedicadas ao cultivo e produção passou de 8,85 para 6,5% no mesmo período."
 

 Créditos:   Oxfam Brasil.

Créditos: Oxfam Brasil.

Isso significa que se você compra 1 litro de suco de laranja por R$ 10 em um supermercado, apenas R$ 0,65 vão para o pequeno agricultor. Diante desse quadro muitas iniciativas tem sido criadas com o objetivo encurtar o caminho entre quem produz e quem consome. Mas a principal delas já existe há bastante tempo: as feiras. 

 

Mapa de Feiras Orgânicas.

O Mapa de Feiras Orgânicas é uma ferramenta de busca, idealizada pelo Instituo de Defesa do Consumidor (IDEC), com o objetivo de estimular a alimentação saudável em todo o Brasil e mostrar que os produtos orgânicos podem ser mais acessíveis aos consumidores.

Uma Pesquisa realizada pelo próprio IDEC identificou que os alimentos orgânicos são bem mais caros nos supermercados em comparação com as feiras. Em um outro levantamento, realizado em 2016, pelo Instituto Terra Mater e o Instituto Kairós, apontou que preço de uma cesta de 17 produtos orgânicos saía, em média, cerca de 50% mais barato nas feiras do que nos supermercados.

O Mapa visa, justamente, encurtar o caminho do consumidor até o produtor para ampliar o acesso aos alimentos orgânicos.

Acesse o Mapa.

 Mapa de Feiras Orgânicas.

Mapa de Feiras Orgânicas.

 

Você conhece quem produz o alimento que você compra?

A Junta Local é uma empresa social do Rio de Janeiro, que se define como uma comunidade em defesa da comida local e justa. Funcionam como uma plataforma que "ajunta" consumidores e pequenos produtores locais. Esse "ajuntamento" acontece de duas formas: nas feiras realizadas periodicamente em bairros do Rio de Janeiro e através da Sacola Virtual, o mercado online da Junta Local.

 Créditos:  Junta Local.

Créditos: Junta Local.

Para manterem a plataforma e realizarem as feiras, a Junta pede aos produtores que contribuam com 15% das vendas realizadas, porcentagem que foi definida em conjunto com os próprios produtores. Essa contribuição serve ainda para custear as atividades de capacitação oferecidas pela Junta Local aos produtores.

Na Junta Local decidimos nos organizar para encarar o desafio de criar um sistema alimentar local juntos, nos apoiando mutuamente e buscando usar a força do coletivo para traçar caminhos e soluções em comum. Colocamos o pequeno produtor no centro da cadeia para que o dinheiro circule na economia local e vá para o bolso de quem realmente faz.
— Junta Local

The Food Assembly: uma plataforma para organizar sua própria Feira.

The Food Assembly é uma empresa social e um movimento que nasceu na França e hoje está presente também na Espanha, Itália, Bélgica, Inglaterra e Alemanha. Através de um modelo colaborativo oferece ferramentas de comercialização, faturamento e comunicação, que permitem que qualquer pessoa possa reunir pequenos produtores locais (o que devem estar no máximo a 250km da região onde acontecerá a feira) e criar uma "feira" de alimentos em seu bairro. 

Pelo lado do produtor, a plataforma web do Food Assembly permite gerir suas vendas de forma autônoma, definindo seus preços e sua forma de comercialização, sem precisar de intermediários.

 Créditos: The Food Assembly.

Créditos: The Food Assembly.

A pessoa que decide criar e gerir uma feira através da plataforma, recebe metade da taxa de administração cobrada sobre as vendas, que é de 16,7%. A outra metade da taxa é utilizada para a manutenção da plataforma online.

 Créditos: The Food Assembly.

Créditos: The Food Assembly.

O Food Assembly, através da tecnologia, descentraliza as feiras. Sua plataforma torna possível que qualquer pessoa seja criador e gestor de uma feira local e consiga ter uma renda a partir dessa atividade. Tudo isso dentro de uma lógica comunitária, voltada para promover o encontro entre produtores e consumidores e baseada no comércio justo.

Atualmente o movimento reúne 210 mil consumidores, que compram regularmente de 10 mil pequenos produtores, em aproximadamente 1500 Feiras.