O Design Aberto e as possibilidades de criação colaborativa.

Lá na década de 90 um grupo de desenvolvedores de softwares estudiosos pra caramba resolveu que open source seria o melhor termo pra caracterizar o movimento que eles criariam. Uma abordagem até então nunca vista, na qual o código-fonte de um software ficaria disponível para uso, redistribuição e modificação por qualquer pessoa que poderia ter acesso a ele. O que a gente não sabia é que o open source ou “código aberto” influenciaria movimentos sociais, novos modelos de negócios e muito mais, de forma que isso seria difícil de reverter.

A partir daí, diferentes conceitos norteados pelo movimento open source surgiram pra definir as novas formas de trabalho que vêm aparecendo nas últimas décadas. No meu trabalho com design de mobiliário e interiores descobri um termo quase em versão beta de tão recente. O Open Design recebeu grande influência do movimento dos desenvolvedores de softwares, mesmo as formas de trabalho que o caracterizam tendo sido vistas já nos anos 80. O open source e o open design se parecem na medida em que as pessoas autoras e criadoras permitem que sua criação seja compartilhada e utilizada.

Mas, para algumas pesquisadoras, diferente da lógica do Código Aberto, no Design Aberto, as criativas e criativos de diferentes áreas, expertises e habilidades colocam à disposição de todos, por meio de soluções e oportunidades, seus talentos individuais. É mais sobre compartilhar, além do processo criativo, a ideia, do que necessariamente um produto fechado. É mais sobre criar colaborando. Colaborar criando especificamente através do design. Fazer dele um processo aberto, disseminando o conhecimento de forma mais igualitária e acessível. As relações podem se tornar mais fluidas, mais rápidas e sem barreiras desnecessárias como, por exemplo, a separação entre designers profissionais e amadores.

Segundo Heloisa Neves, pesquisadora do open design, esse movimento recente adota o sentido de co-criação ao invés da originalidade, pois as ideias são do mundo e podem ser compartilhadas com todos. Há os questionamentos, claro. De quem seria a autoria, então? Como ter esse modelo de negócio bem organizado com confiança mútua e retorno? Reciprocidade, confiança e clareza são necessários. Mas penso que as respostas podem vir por meio de tentativas, da experimentação.

O designer francês Pierre Lota aposta no compartilhamento e distribuição das suas criações em mobiliário a partir da venda de livros ilustrados com o que faz. Depois de ter morado temporariamente por lá, tive acesso ao trabalho do Pierre. Hoje recrio, à minha maneira, os móveis feitos com cabides e que ele resolveu abrir para o resto do mundo. Sabemos que ele é o autor das criações, há retorno financeiro por meio da venda de centenas de livros e, no meu caso, há confiança entre as partes, pois sempre cito a fonte.

 Créditos:   Eva Mota.

Créditos: Eva Mota.

A proposta é recriar móveis rápidos, de alto poder utilitário e economicamente viável, reaproveitando objetos de fácil acesso como os cabides.

 Créditos:   Eva Mota.

Créditos: Eva Mota.

 Créditos:   Eva Mota.

Créditos: Eva Mota.

Esse exemplo de open design nos dá noção de mais um prisma. Toma outra dimensão em relação ao design tradicional por conta da revolução da comunicação na internet e das informações em rede. Como faço por mim mesma, entro no campo de uma estratégia de produção que visa a prática como o “Do It Yourself” que deve sim estar a serviço do design, pois traz a realização para a esfera do real, da possibilidade.

Compartilho os tutoriais das criações dos móveis do Pierre Lota com quem acompanha meu trabalho nas redes sociais. Divido com quem lê meu blog todo o passo-a-passo. Torno acessível às diversas pessoas no interior da Bahia, por exemplo, o que é criado por um designer em Paris.

Além dos questionamentos feitos acima, outros estão presentes e vão levar a outras reflexões por algum tempo. Mas uma dúvida, que também já foi minha é o que move essas criativas e esses criativos a quererem abrir seus processos para o mundo sem ter noção do que vão receber em troca?

Howard Rheingold, referência no assunto sugere que o que anima as pessoas adeptas ao design aberto é a confiança nessa rede que se forma, além da expectativa por maior troca de conhecimento e aumento de oportunidades de sociabilidade. Concordo que é uma prática bem possível, se bem planejada e estruturada no que se refere à gestão e produção também. Acredito demais na potência dessa troca, afinal Se você tem uma maçã e eu tenho outra e nós trocamos as maçãs, então cada um terá sua maçã. Mas se você tem uma ideia e eu tenho outra e nós as trocamos, então cada um terá duas ideias.”


Eva Mota é empreendedora criativa, designer de interiores e jornalista. É Baiana, mãe de um trio de bichanos e adora uma boa risada.

Para saber mais

Fab Lab: A Vanguarda da Nova Revolução Industrial. Fabien Eychenne e Heloisa Neves. Leia aqui.

Open Design Foundation. Acesse.