Vale do Dendê: a margem como potência.

 Ítala Herta e Nina Silva.

Ítala Herta e Nina Silva.

Terça-feira à noite, Avenida Paulista, no escritório de uma grande empresa da área de Tecnologia um grupo de pessoas ouvia atentamente Nina Silva e Ítala Herta falarem sobre afroempreendedorismo. Vê-las falarem sobre seus projetos dá a sensação de que, apesar de tudo, as estruturas estão se movimentando.

O meetup "Afroeempreendedorismo: o caso do Vale do Dendê" foi organizado pelo escritório paulista da ThoughtWorks, empresa que tem se engajado bastante em causas de impacto social, em especial a defesa da diversidade. Um das iniciativas nessa linha é a campanha Enegrecer a Tecnologia, que busca discutir a inclusão de pessoas negras no universo da tecnologia.

Uma das ações da campanha foi o Enegrecer Recrutamento Expresso, que buscou selecionar "pessoas desenvolvedoras negras" para integrarem os escritório da ThoughtWorks no Brasil. A etapa presencial do recrutamento aconteceu, não por acaso, em Salvador, cidade mais negra do Brasil e onde está o Vale do Dendê, tema principal do Meetup.

Não por acaso também a anfitriã do encontro era Nina Silva, Gerente de Projetos da ThoughtWorks e fundadora do Movimento Black Money. Na sua fala Nina mostrou como o racismo gera um ciclo de dificuldades quase intransponível para o empreendedor negro. Dificuldades que começam no acesso ao crédito, pois "empreendedores negros têm seus pedidos de crédito negados 3 vezes mais que empreendedores brancos no Brasil". Junte-se a isso a falta de acesso à educação empreendedora,  outro fator que torna o cenário ainda mais desigual, mesmo os afroempreendedores sendo maioria o Brasil. Para completar o quadro há ainda o desafio de reconhecer-se e ser reconhecido como empreendedor.

Foi pensando nessas questões que foi criado o Vale do Dendê, " uma holding social destinada a fomentar ecossistemas de inovação e criatividade com foco em diversidade." Uma das principais ações do Vale do dendê é a sua Aceleradora que, em seu primeiro Edital de aceleração, recebeu 107 inscritos.  Ao final do processo  10 startups foram selecionadas para participar do programa de aceleração, que envolve mentorias, encontros com investidores e capacitação.

O Vale do dendê é a versão baiana do Vale do Silício?

No livro Smart: o que você não sabe sobre a Internet, o sociólogo e jornalista francês Frederic Martel investiga as razões para o sucesso do famoso Vale do Silício. Uma das conclusões a que ele chega é a importância do território e das características locais, mesmo se tratando do epicentro da economia digital:

O Vale do Silício é menos um lugar, um ponto geográfico, do que um estado de espírito.
— Frederic Martel.

Ao visitar e analisar pólos de inovação criados ao redor do mundo, Martel identificou a replicação de uma visão na maioria das vezes superficial do modelo do Vale do Silício. Quase todos ignoram ou não dão a devida atenção ao fato de que questões como identidade, comunidade e território são determinantes quando se fala em inovação.

Ao focar suas ações no fomento à economia criativa, à inovação social e à diversidade os fundadores do Vale do Dendê demonstram que não pretendem replicar modelos, mas apostar na criatividade e na originalidade. E que lugar mais apropriado para criar e ser original do que Salvador?

"Respeitar o que veio antes, manter as tradições e conectar com o futuro", disse Ítala Herta tentando sintetizar os valores do Vale do Dendê. Nos anos 60, um grupo de artistas baianos pensou de forma parecida: valorizou tradições mas abraçou, antropofagicamente, novos elementos. Nascia assim o Movimento tropicalista e uma verdadeira revolução na música brasileira. Pois então que o Vale do Dendê represente, finalmente, a chegada do Tropicalismo ao mundo da inovação e do empreendedorismo.