Bate-papo com Rodrigo Carvalho.

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A Thayna foi ao Rio de Janeiro e aproveitou para se conectar com alguns alguns expoentes desse novo cenário da economia, para entender como estão operando algumas dessas iniciativas e trazermos essas informações aqui no Co.cada. A primeria entrevista que postamos foi com o Felipe Salazar do Coletivo Trama, e se você ainda não leu, #ficadica.

E atendendo a um convite nosso, ela teve um bate-papo que virou mais uma apresentação do professor Rodrigo Carvalho, um dos responsáveis pela criação e coordenação do núcleo de Economia Criativa da ESPMno Rio de Janeiro.

Eu pedi pra escrever sobre essa entrevista, porque além de ser um grande interessado pelo tema de inovação social e das novas economias, eu sou um privilegiado de ter o Rodrigo como amigo há quase 20 anos.

Pra resumir seu longo e impressionante currículo no meio do empreendedorismo e inovação, temos que regressar a maio de 2000, quando durante a sua graduação em Economia na UFRJ, ingressou como estagiário numa das primeiras consultorias especializadas em elaboração de plano de negócios e captação de recursos para startups no Brasil. Entre outros projetos desenvolvidos, já como coordenador análise de mercado, até o ano de 2005, viu o surgimento da Ingresso.com, a aquisição da AKWAN pelo Google e dezenas de projetos consultoria para Centro de Estudos de Software Avançados do Recife (CESAR). Hoje é Doutorando, Mestre e Especialista em Engenharia de Produção (COPPE/UFRJ), e com outra graduação em Geografia pela UFF. No total, Rodrigo reúne mais de 15 anos de trabalho em projetos e iniciativas no ecossistema da economia criativa. Entre os quais podemos citar o Porto Digital e o CESAR ambos no Recife, além da mentoria na Maratona de Negócios Socias organizado pelo Sebrae/RJ em 2013.

Rodrigo também possui experiência internacional. Além de ter cursado parte da sua graduação em Economia em Portugal (ISEG/UTL), também chegou a ter um braço de sua consultoria em Barcelona/Espanha. Hoje, professor e pesquisador do tema, realiza projetos e parcerias para a ESPM com empresas como o Instituto Nissan , Alex Atala ou a ABVCAP.

A conversa foi muito livre com Rodrigo expondo seus pensamentos sobre o cenário da economia criativa e como a economia colaborativa se insere nesse contexto.

“O mais importante é conseguir separar o modo da moda.”

Embora possua um olhar bastante otimista sobre os projetos da economia colaborativa, ele deixa um conselho: “Ao se analisar o mercado, o mais importante é conseguir separar o modo da moda”. Visão que explicita bem as divergências de opiniões presentes sobre a temática. Um exemplo desta discussão pode ser visto aqui.

Rodrigo observa o crescente crescimento do envolvimento dos jovens de classe média e média alta em projetos de Economia Compartilhada com cautela. Pois, segundo ele, muitos estão adotando esta economia como “estilo de vida”, sem se preocupar com os impactos que seus projetos possam causar, além de alguns atuarem apenas repetindo coisas que escutam, seguindo portanto uma tendência, sem se aprofundar sobre o tema.

Neste contexto, seu conselho é que mantenhamos sempre um pensamento crítico, e não atuemos como tal, repetindo ideias que escutamos por aí, como por exemplo, dizendo que o Airbnb é parte da nova economia. Segundo ele, este modelo, adotado também por diversas outras empresas, não tem nada de novo. “O capitalismo sempre quis isso — maximizar o lucro, evitando a qualquer custo, imobilizar capital. Outro exemplo é a Netflix, que fatura 30% mais que SBT e tem apenas 12 funcionários. Como é que você organiza isso? Como organiza a previdência? Como que se paga os impostos? Porque não paga impostos. É uma discussão… Eu tenho e adoro. Não tenho TV… Sou contra barrar, mas também sou contra a ignorância de achar que só tem o lado bom. Que estamos falando da nova economia.”

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Como bom exemplo de quem está fazendo algo realmente novo, cita a plataforma Tem Açúcar de compartilhamento de produtos entre vizinhos. E acrescentou que, junto com a esposa, fazem parte de um grupo de whatsapp com quase 1000 vizinhos em Laranjeiras, através do qual compram e vendem tudo usado. Aponta também a entrada no cenário da cultura Maker como algo diferente, porque esta muda a cadeia de valor. A partir daí a conversa se encaminhou para como essas plataformas afetam a vida nas comunidades, cidades e as relações de trabalho.

Rodrigo também fez uma pausa e contou que se considera um privilegiado por ter a condição sócio-econômica e cultural onde nasceu, e crescemos. E hoje pode se dar ao luxo de viver em Laranjeiras e trabalhar no centro, saltar no Largo do Machado e voltar caminhando para casa, mesmo que seja compartilhando o trajeto de 800m com policiamento extensivo.

Visões para o Futuro.

A conversa terminou com suas visões para o mercado e o futuro do trabalho. Um trecho tão rico, que resolvi transcrever:

Rodrigo.

A gente só vai ser completamente desenvolvido se começar a integrar as coisas. Não vai ser levantando muros. Que na emergência é o que tem, mas a longo prazo é um desafio enorme. E vamos ver, a gente tenta ajudar. E até que a crise é boa pra isso, faz as pessoas pensarem em novos modelos.

Thayna.

Você acha que já tem alguma movimentação nesse sentido?

Rodrigo

Tem que ter! Tenho observado todo dia no jornal que industria do audiovisual, que é tão importante pra cidade, está conseguindo passar batido pela crise. São setores que mobilizam muitas oportunidades de trabalho.

Desde de 2004, eu tenho na minha cabeça que eu não devo direcionar minha atuação profissional para o emprego. O emprego não existe e não vai existir. E claro, pela minha condição socioeconômica e cultural e tudo que eu fiz e onde eu me formei. Por isso eu tenho os trunfos para me conectar nessa rede mundo: tenho conhecimento e, principalmente, uma boa capacidade de aprendizagem.

A gente vive no mundo do conhecimento e eu tenho ativos para trocar. Mas eu entendo quem não consegue, não quero impor um paradigma. Eu me preparei pra isso. Eu me preparei para estar preparado.

Não é que estamos numa crise. É um estado permanente de crise. Os ciclos sempre existiram. O capitalismo é explicado pelas suas crises estruturais. Só que sempre criou-se paradigmas para dar tempo para esse processo de destruição e criação, (Schumpeter1). Destrói e cria o novo. Criava o novo, expandia a economia, a galera se empregava ganhando mais, e logo se destruía e se criava de novo. Só que agora a gente está num estágio, que inclusive tem um estudo do MIT dizendo que desde 2004 pra cá, não se cria mais nada, só se destrói.

Estava lendo ontem a noite um livro, Capitalismo Cognitivo, que explica justamente isso. Já não é mais o Pós-fordismo do Harvey2 ou o mundo flexível da inovação da galera do Japão. É uma coisa diferente, e é difícil e vai ser difícil pra galera, porque é um estado permanente de crise. Não dá tempo de estabilizar e criar riqueza. As coisas hoje se desmancham muito rápido.

A conversa terminou com esse ar de muito trabalho pela frente, mas fica o enorme agradecimento a esse grande veterano da inovação social e do fomento a criatividade que tenho o prazer de beber da fonte, há tanto tempo.

Notas

1)Teoria do desenvolvimento econômico. Schumpeter, Joseph — disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Schumpeter
2)Condição Pós-Moderna. Harvey, David — disponível em: http://passapalavra.info/2011/06/40797